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Narizes quebrados

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Natalino

Em gesto de humildade, permitir que o entusiasmo (respirar Deus para dentro) encontre nossas narinas cobertas pelas máscaras terrenas, mas desnudas e intactas pela esperança humilde no amor divino

O texto de Gênesis que descreve Deus soprando o espírito de vida na sua imagem e semelhança feita de barro (a humanidade) é deveras muto significativo para os que tem a Bíblia como referência religiosa. A vida de algo inanimado feito do barro, elemento base da cerâmica, está presente em quase toda história inicial dos povos.

Outras civilizações entendem a importância do “fôlego da vida” que adentra pelas narinas. Atualmente a humanidade luta para se manter diante de um mal que rouba a vida e está misturado ao ar que a sustem.

Não pretendo desconstruir as bases da fé daqueles que creem, mas, apenas, observar o livro comparar pontos comuns na religiosidade, observando semelhanças, ou analisando suas narrativas. A história da Criação na Bíblia está repleta de saberes antigos das religiões e tradições culturais de sua época de escrita.

Ao identificar isto se legitima a importância do livro que aproveitou a história oral popular e a agrupou de modo organizado, favorecendo o pensamento monoteísta que se desenvolveu durante os vários anos em que a Bíblia foi escrita. Em outras palavras, a crença de que os deuses poderiam habitar esculturas de barro, madeira, cerâmica, bronze, mármores, ou outros materiais, através dos narizes esculpidos nelas, de certo modo, está presente na clássica narrativa do livro dos Gênesis.

Recentemente, em 2019, houve a primeira exposição sobre quebra ou mutilação de esculturas (iconoclastia) do antigo Egito, a Striking Power: Iconoclasm in Ancient Egypt (Iconoclastia no Egito Antigo), seu curador, Edward Bleiberg, apresentou pontos relevantes que explicavam a relação com as imagens dos deuses ao longo da história. Geralmente a quebra da imagem em várias partes advém da crença de que isso anularia a atuação de um deus, ou mesmo, o impediria de “reviver”.

Deste modo, para evitar que uma entidade sagrada concedesse benção ao pedinte, quebrava-se as mãos da escultura, ou para interromper sua audição, arrancava-se os ouvidos da escultura. Mas, certamente, o mais significativo era o impedimento de habitar o corpo esculpido de uma determinada divindade ou pessoa importante para determinado grupo. A quebra das narinas das estátuas possuía o significado de impedir que os deuses, ou o espírito de alguém de habitarem em esculturas que os representassem.

Desde 2019 , o planeta enfrenta uma pandemia provocada pelo coronavírus. A ação sanitária da lavagem e desinfecção por álcool das mãos, o distanciamento social e o uso de máscaras faciais, são aliados que evitam contágio. Isto se deve ao conhecimento científico de que o principal modo de propagação deste vírus se dá mediante sua dispersão nas gotículas pelas vias respiratórias externas: boca e nariz. Os homens estão ameaçados.

O fôlego soprado divinamente em suas narinas não é mais puro, tornou-se necessário cobrir as bocas que clamam e os narizes que inspiram, pois o mal tem a ousadia de usar o caminho dos deuses para o contaminar. É tênue a linha subjetiva do ser e sua ação objetiva: os homens podem contaminar seja por portar um vírus físico, ou por exalar palavras, pensamentos e gestos do sistema da maldade.

Em meio a isto tudo, alguns não cobrem suas narinas e bocas e, por não temerem a gravidade do vírus se portam como deuses da maldade: convocando súditos que os sigam não garantem nada mais que a morte. Seres que necessitam submeter “narizes empinados” à iconoclastia da humildade.

Resta, então, o caminho da boa inspiração divina, tal como dizia o pai da medicina Hipócrates: “Certamente, é o divino que nos santifica, purifica e limpa dos nossos erros gravíssimos e ímpios”. E, em gesto de humildade, permitir que o entusiamo (respirar Deus para dentro) encontre nossas narinas cobertas pelas máscaras terrenas, mas desnudas e intactas pela esperança humilde no amor divino.

Natalino Rogélio Oliveira Soares, graduado em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie

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